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Todas as quartas-feiras ocorre um encontro de grandes olhos na Universidade de Brasília. Os grandes olhos da minha orientadora se encontram com os meus. Escolhi minha orientadora porque ela é uma criatura educada, doce e gentil. Diante dos relatos desesperados ou desesperadores de alunos que foram abandonados por seus orientadores na confecção de suas monografias, não pestanejei e “reservei” minha vaga com ela com meses de antecedência. Ela definiu um tema para o meu trabalho. Para falar a verdade, gostaria que o tema fosse bastante inovador, relevante e que desse uma chacoalhada na astenia do mundo contábil.
Propostas:
- A vida sexual dos estudantes do curso noturno de ciências contábeis da unb: um relato desesperador. Ou
- Os débitos e créditos da vida: Estudo empírico sobre o que há de errado com aqueles que só tomam na jaca.
Rechaçadas as minhas propostas, ela inventou um besteirol-tema e marcamos nosso primeiro encontro.
Na primeira reuniãozinha semanal, cheguei com um monte de textos sublinhados (sobre o tema que definimos meses antes), sem saber muito bem o que falar e, antes que eu abrisse a boca, ela sugeriu uma mudança de tema. Achou que o tema anteriormente sugerido estava muito “batido”. Ela estava super empolgada. Seu grandes olhos brilhavam enquanto aquela idéia genial pairava em sua mente. Ela ficou radiante. E toda essa radiação (radiante=>radiação) se refletia em seus graaaaandes olhos cor de terra. Enquanto isso, meus grandes olhos cor de mel refletiam um misto de medo, angústia, dúvida, ignorância, burrice, lentidão (tipo Homer Simpson), indisfarçáveis. Sinceramente, eu não fazia a menor idéia do que ela estava falando. Só respondia com alguns monossílabos (é, ã, â, hum). Ok, depois do encontro, arremessei meus textos sublinhados na lata do lixo e comecei a pesquisar na internet sobre o novo tema: consórcios públicos. É um blábláblá danado de inútil. Mas, diferentemente dos muitos blábláblás que eu estou acostumada a ouvir, esse blábláblá é especial: ele representa o último obstáculo que eu devo transpor com minhas grandes pernas, unhas e dentes para pegar a porra desse maldito canudo.
Na segunda reunião, levei umas leis sublinhadas (o texto sublinhado indica que você o leu, o que é um ótimo sinal), e definimos, mais ou menos o enfoque que daremos ao meu trabalho. Em todos os nossos encontros, os grandes olhos dela brilham fortemente pelo menos duas vezes. Ela está cheia de expectativas quanto ao artigo que a minha pessoa está escrevendo. E confesso que hoje ela foi longe demais. Se no último encontro, ela mencionou a possibilidade de apresentar o Blábláblá em um congresso nacional, hoje o zoião dela vibrou quando a ganância extravasou o território brasileiro e vislumbrou nossa produção científica sendo demonstrada num congresso internacional.
Por enquanto eu estou a deixando sonhar. Estou dando asas para a sua imaginação. Por enquanto eu não vou dizer a ela que eu não vou fazer mestrado, não vou fazer pós-graduação, não vou para congresso internacional, nada isso está nos meus planos e que, acima de tudo, está o meu pavor de falar