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Porra nenhuma
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Clodovil
Pontual. Às 19h ele entrava na sala. Com seus quarenta e poucos quilos, parecia levitar. Chegava à mesa e começava a aula. Primeiro, perguntava se todos haviam lido o texto. 5,67% da turma respondia que sim. Depois do olhar de reprovação, ele começava a falar sobre o homem de sua vida: Adam Smith. Não importa qual era o assunto do texto que indicara ler, ele sempre falava sobre Adão. Livro tal, página tal, parágrafo tal. Ele sabia tudo decorado. Quando alguém tinha dúvida sobre a matéria e a externalizava, ele falava, falava, falava e falava, olhava para o teto, sorria e... falava, falava, falava e não respondia absolutamente nada a respeito do que havia sido perguntado. Quando faltavam apenas cinco minutinhos para terminar a aula, algum FDP questionava alguma coisa e ele falava, falava, falava...
Bola de sebo
Pouco se sabe sobre o futuro, mas tudo o que sei é que não quero ser como ele. O Bola de sebo tinha uma barriga monstruosa. Seus cabelos, colados no couro cabeludo, há muito não sentiam “cheiro” de água. Ele nunca preparava as aulas. Só faltava chegar bêbado na sala. Adorava falar sobre a Skol e sobre barzinhos. Só não gostava muito de falar sobre contabilidade industrial, a disciplina que ele ministrava. Além de tudo, acima de tudo, era um cara de pau. Certo dia, ele teve a coragem de nos apresentar transparências desenhadas a mão e pintadas com canetinha, por ele mesmo, sobre a história da contabilidade. Aquilo mudou a minha vida. Passei a matar muito mais aulas.
Leão
Esse era marroquino (acho). Odiava-me com toda a sua força. Eu não tinha muito saco para as aulas dele, confesso. Sociologia. No dia do seminário, cheguei bem no meio da apresentação do meu grupo (culpa do meu chefe) e nada falei, minha vez já tinha passado. Fiquei lá na frente, uma verdadeira paspalha, toda perdida. Leão bem que tentou me reprovar, talvez merecidamente, mas fez uma confusão danada com as notas e acabou me aprovando e reprovando uma colega minha que havia apresentado a maior parte do trabalho. Por sorte, no final, ele acabou aprovando as duas. Passei por pouco.
Raspando.
Edwin
Chileno, peruano, sei lá. Utilizava um recurso didático inovador e revolucionário na Universidade: o retro-projetor. Em cada aula, apresentava um bolo de transparências. Falava um quilo e ninguém entendia uma grama. Ensinou-nos uma palavra nova, criada por ele mesmo: disminuir. No dia da prova da matéria dele teve greve de ônibus. Quase não consegui chegar à universidade. Cheguei. A prova tava fácil. Era só desenhar bolinhas e quadradinhos alternados: Sistemas de Informações Contábeis.
Biage
Calouros de contabilidade. Ávidos por conhecimento. Cadernos novos, kits de canetas e borrachas coloridas. Um sonho. O pior já passou. Passamos no vestibular da unb. O que poderia ser pior do que vestibular? Biage entra na sala.
(...)
Certa vez, um aluno falou para Mr. Biage que se a prova que ele iria aplicar fosse do nível da aula dele, “a gente tava feito”. Mr. Biage perdeu a compostura: “Eu ganho R$ 400,00”.
A morte de um ente querido traz um mundo de sentimentos e reflexões. Traz dor, saudade, dúvida e até remorso. É um estímulo a se repensar o modo de agir, nossas relações com as pessoas, nossos valores. Há muitas lições a serem aprendidas e atitudes a serem internalizadas. Nunca estamos preparados para nos despedir de pessoas que sempre fizeram parte da nossa história. Acho que nunca estaremos. Nesse momento, demonstramos o quão somos frágeis. E o quanto precisamos dar e receber apoio. É uma ótima oportunidade para sabermos quem, realmente, são seus amigos e quem são as pessoas que realmente gostam de você, pois elas, certamente, se manifestarão de alguma forma.